Muito é falado sobre “não ter tempo”. Alguns afirmam que 24 horas não são suficientes para as atividades que gostariam de realizar. A simples idéia de parar e pensar torna-se então um absurdo para o homem moderno. Desenvolvimento não acontece no ócio, certo?
O ser humano trabalha pelo seu sustento, ganha conhecimento (e reconhecimento), garante um futuro confortável através do desenvolvimento profissional. A saúde é outra preocupação necessária, e o lazer entra na lista muitas vezes como forma de compensação pelo tempo “produtivo”, perdendo a sua devida importância.
Em meio a tantas tarefas para assegurar a ascensão nestes pilares, ficar parado significa ser atropelado pelo chamado “mundo pós-industrial”. O que falta para a grande maioria é a capacidade de gerar equilíbrio nesta relação, e o motivo é exatamente a pressa e a sensação de desperdício de tempo que a sociedade impõe. As pessoas não conseguem atingir o que o sociólogo Domenico de Masi chama de “ócio criativo”, um tempo de meditação e contato com o “eu interior”, o sincretismo entre as atividades de acordo com todas as dimensões que merecem atenção e desenvolvimento.
Para Luiz Caversan, toda esta má administração de tempo pode ser chamada de “síndrome do coelho da Alice”, sempre com pressa sem deixar claro aonde quer chegar. O jornalista descreve também o efeito sobre a imagem da vida sob esta ótica como “semelhante ao que ostenta a paisagem próxima à janela do veículo em alta velocidade: borrada, indefinida, fugaz, ininteligível”.
Se houvesse tempo para diminuir o ritmo e apreciar a paisagem ao invés de apenas enxergá-la de relance, talvez não fosse tão comum ouvir aquela velha história de “como eu era feliz naquele tempo que não volta mais”.
